Os sistemas operacionais abertos costumam ser associados diretamente ao ecossistema Linux. Contudo, há pelo menos nove projetos relevantes que desafiam essa lógica e oferecem alternativas igualmente livres, cada um com história, propósito e arquitetura próprios. Neste artigo, examinamos essas opções, seu contexto de surgimento e os motivos que ainda hoje atraem entusiastas e pesquisadores.
Apresentamos a seguir um panorama completo, aprofundado e humanizado sobre Plan 9, Haiku, Minix, HelenOS, AROS, ReactOS, FreeDOS, GNU Hurd e a família BSD. Embora compartilhem a filosofia de código aberto, esses projetos buscam solucionar problemas distintos, revelando a pluralidade do movimento.
Por que olhar além do Linux?
Desde que Linus Torvalds divulgou seu kernel em 1991, o Linux conquistou centros de dados, smartphones e dispositivos embarcados. Entretanto, o universo de sistemas operacionais abertos não se resume ao pinguim. Antes dele, pesquisadores já experimentavam novas formas de organizar softwares, lidar com hardware e distribuir carga de trabalho. Após o advento do Linux, outros ainda encontraram espaço para inovar, resgatar conceitos ou satisfazer nichos específicos.
Observar esses projetos ajuda a entender a evolução da computação e, principalmente, a oxigenar ideias. Nem todo recurso que vemos no Linux nasceu no Linux; muitos vieram de pesquisas paralelas ou serviram de inspiração para soluções implementadas depois. Além disso, a diversidade preserva conhecimento histórico, incentiva modelos de aprendizado e sustenta comunidades apaixonadas por colaborar.
1. Plan 9 From Bell Labs
Batizado em referência ao clássico de ficção científica “Plan 9 from Outer Space”, o Plan 9 From Bell Labs foi criado por Rob Pike e outros integrantes da equipe original do Unix. O projeto partiu do lema “tudo é arquivo” do Unix e ampliou essa visão: servidores em rede podiam ser explorados como diretórios locais, simplificando o acesso remoto.
Nos anos 1990, o objetivo principal era construir um sistema operacional distribuído. Nesta arquitetura, PCs e estações de trabalho funcionavam apenas como terminais que acessavam servidores de arquivos e de processamento. A experiência pretendia dissolver a barreira entre máquina local e infraestrutura remota, algo que hoje reconhecemos em conceitos como computação em nuvem.
Tentativas de comercializar o Plan 9 esbarraram na predominância de Unix comerciais, Windows e, posteriormente, do próprio Linux. Ainda assim, o legado de suas ideias alcançou outros sistemas — inclusive o Linux, que absorveu diversos conceitos. Anos depois, o código foi liberado como open source, permitindo que qualquer pessoa baixe e execute o Plan 9 para fins de estudo ou nostalgia tecnológica.
2. Haiku
O Haiku é a recriação open source do lendário BeOS, sistema concebido por Jean-Louis Gassée (ex-Apple) com foco em multimídia e multiprocessamento, numa era em que computadores pessoais geralmente possuíam apenas um processador. O BeOS ganhou fama pela fluidez na manipulação de áudio e vídeo, mas acabou desaparecendo em 2001, quando a empresa Be foi adquirida pela Palm.
A comunidade decidiu então ressuscitar o conceito, dando origem ao Haiku. O paralelo com o Linux é inevitável: assim como o Linux reimplementou o Unix para fins acadêmicos e, mais tarde, produtivos, o Haiku busca fazer o mesmo com o BeOS. Atualmente, o projeto entrega um sistema coeso, capaz de rodar em hardware contemporâneo, mantendo a simplicidade e a elegância visual que conquistaram fãs décadas atrás.
Para quem atua com criação de conteúdo multimídia ou apenas quer reviver a experiência BeOS, o Haiku fornece instalações ISO atualizadas, fóruns ativos e documentação detalhada. Embora ainda não substitua um desktop de produção na maior parte dos casos, o projeto segue evoluindo.
3. Minix
Desenvolvido pelo cientista da computação Andrew Tanenbaum como material de apoio ao seu livro sobre sistemas operacionais, o Minix ganhou notoriedade por adotar o conceito de microkernel — um núcleo minimalista que delega várias funções a servidores em espaço de usuário. Essa estrutura tem como meta aumentar a estabilidade e a segurança, pois cada serviço roda isoladamente.
O Minix reuniu uma pequena comunidade porque o livro trazia o código-fonte completo a custo acessível. No entanto, a celebridade maior veio quando um estudante finlandês chamado Linus Torvalds se inspirou no Minix para escrever o seu próprio kernel, entre partidas de Prince of Persia. O resultado é o Linux que conhecemos hoje.
Anos mais tarde, Tanenbaum redesenhou o Minix para tornar-se um sistema superconfiável e publicou todo o código como software livre. Embora não tenha a adoção massiva do Linux, o projeto continua servindo como laboratório para pesquisas acadêmicas sobre microkernels.
4. HelenOS
Partilhando das mesmas raízes acadêmicas do Minix, o HelenOS também explora a arquitetura de microkernel. À primeira vista, chama a atenção a interface retro, que lembra o Windows 3.1 e o Windows 95. O objetivo do projeto, entretanto, vai além da estética: os desenvolvedores experimentam maneiras diferentes de gerenciar processos, com ênfase em modularidade.
Apesar de divertido para curiosos, o HelenOS ainda não está pronto para substituir um sistema operacional de uso diário. A instalação pode exigir paciência, e muitos aplicativos populares não estão portados. Mesmo assim, para quem estuda design de kernel ou gosta de ver como conceitos podem ser implementados fora do paradigma Unix, o HelenOS representa uma aventura interessante.
5. AROS — AROS Research Operating System
Se o coração bate mais forte ao ouvir a palavra “Amiga”, o AROS foi feito para você. A sigla recursiva AROS Research Operating System designa uma tentativa de reconstruir o AmigaOS, famoso na década de 1980 pela interface amigável e multitarefas preemptiva.
Embora aspire à máxima compatibilidade com o sistema original, o AROS constitui uma reimplementação completa. A vantagem imediata é rodar em diferentes tipos de computadores — inclusive PCs comuns, algo que o AmigaOS oficial não oferece nativamente. Vários sabores estão disponíveis, como AROS One, Icaros, AROS Vision e AspireOS, cada qual com foco e conjunto de ferramentas específicos.
Para entusiastas de retrogames, demos ou apenas colecionadores de história digital, o AROS possibilita reviver o ecossistema Amiga sem depender de hardware antigo. Também serve como plataforma didática para quem deseja investigar a engenharia por trás daquele ambiente inovador.
6. ReactOS
Se o AROS homenageia o Amiga, o ReactOS tenta um feito ainda mais ambicioso: reimplementar o Windows em código aberto. O visual lembra o clássico Windows 9x, mas a ambição técnica conversa com o kernel do Windows NT, buscando compatibilidade com versões modernas.
A tarefa avança lentamente por dois motivos. Primeiro, é necessário adotar técnicas de engenharia reversa em “sala limpa” para não violar propriedade intelectual da Microsoft. Segundo, as APIs do Windows mudam com frequência, fazendo com que parte do trabalho precise ser refeita periodicamente.
Mesmo assim, o ReactOS pode ser baixado em imagens ISO e surpreende pela usabilidade básica. Há inclusive um jogo de Paciência — recurso ausente nas edições recentes do Windows, pelo menos sem anúncios. Para quem depende de softwares herdados ou simplesmente quer estudar a arquitetura NT sem fechar o código, o ReactOS representa uma alternativa valiosa.
7. FreeDOS
Enquanto o ReactOS mira o Windows NT, o FreeDOS faz algo mais singelo: recriar o MS-DOS, sistema monotarefa e monousuário que dominou o mercado de PCs nos anos 1980. Ele mantém limitações clássicas, como a barreira de 640 kB de memória convencional, contornável via gerenciadores incluídos no pacote.
Por que alguém rodaria o FreeDOS em pleno século XXI? A resposta passa por nostalgia, preservação de jogos e softwares vintage, além de tarefas de manutenção de firmware. Muitas utilidades de atualização de BIOS, por exemplo, ainda esperam um ambiente DOS para operar. Outra aplicação possível está em sistemas embarcados, onde a simplicidade conta mais que a robustez de um Linux mínimo.
Imagem: Lucas Gouveia
O projeto preserva compatibilidade com hardware antigo, mas também funciona em máquinas recentes ou máquinas virtuais, permitindo que veteranos e novos usuários revisitem a era dos prompts de comando.
8. GNU Hurd
Antes mesmo de Linus Torvalds liberar seu kernel, o movimento de software livre já tentava criar um núcleo totalmente aberto. Essa missão era do GNU Hurd, sustentado sobre o microkernel Mach da Universidade Carnegie Mellon. A ideia era compor um sistema operacional inteiro, substituindo de forma livre os Unixes proprietários.
Infelizmente, o desenvolvimento avançou mais devagar que o previsto. O Linux acabou ganhando tração, mas o Hurd permanece ativo. A distribuição Debian, por exemplo, mantém imagens Debian/Hurd, embora ainda não recomendadas para produção. O maior obstáculo é a escassez de drivers, já que grande parte da energia comunitária migrou para o Linux.
Mesmo com esse gargalo, o Hurd continua a despertar interesse acadêmico. Rodar o sistema em uma máquina virtual é possível, ainda que o processo possa exigir persistência até chegar à tela de instalação.
9. A família BSD
Entre todos os sistemas operacionais abertos fora da órbita Linux, os BSD talvez sejam os mais conhecidos. Sua linhagem remonta à Berkeley Software Distribution, criada na Universidade da Califórnia em Berkeley no fim da década de 1970. Modificações realizadas sobre o Unix original rapidamente agradaram outras universidades e fabricantes de estações de trabalho.
Um dos grandes trunfos do BSD foi adotar o protocolo TCP/IP precocemente, o que facilitou a criação de redes de computadores e abriu caminho para a internet moderna. Hoje, quatro descendentes se destacam:
FreeBSD – O projeto nasceu da necessidade de portar a base BSD para arquiteturas x86, continuando o trabalho iniciado pelo 386BSD. Conhecido por sua estabilidade em servidores de arquivos, conta com suporte nativo ao sistema de arquivos ZFS. A robustez faz com que empresas como a Netflix usem o FreeBSD para distribuir conteúdo via a plataforma Open Connect, enquanto o site FlightAware emprega o sistema para rastreamento de voos.
NetBSD – Também herdeiro do 386BSD, prioriza a portabilidade. O lema “Of Course It Runs NetBSD” reflete esse compromisso: seja em PCs modernos, antigos Macs com processador Motorola 68000 ou até minicomputadores DEC VAX, o NetBSD dá um jeito. Há até registro de execução em uma torradeira, prova bem-humorada da flexibilidade do projeto.
OpenBSD – Surgiu após divergências entre Theo de Raadt e outros colaboradores do NetBSD. O foco é segurança. Os desenvolvedores se orgulham de contabilizar pouquíssimas falhas de segurança remota verificadas historicamente. Ferramentas como OpenSSH e o multiplexador de terminal tmux saíram desse ecossistema para o mundo.
DragonFlyBSD – Trata-se de uma derivação que ousou modificar aspectos centrais do código BSD. Entre suas inovações estão o sistema de arquivos HAMMER2, com desduplicação e snapshots, e a possibilidade de executar kernels virtuais em espaço de usuário — recurso que facilita a depuração.
Comparativo rápido: onde cada projeto brilha
• Plan 9: arquitetura distribuída, experimentação de espaços de nomes em rede.
• Haiku: experiência desktop multimídia leve, resgate do BeOS.
• Minix e HelenOS: estudo de microkernels e confiabilidade acadêmica.
• AROS: compatibilidade com o legado Amiga em hardware atual.
• ReactOS: execução de softwares Windows sem dependência da Microsoft.
• FreeDOS: manutenção de BIOS e execução de programas DOS clássicos.
• GNU Hurd: pesquisa em design modular de kernel livre.
• BSDs: estabilidade de servidor, portabilidade extrema ou foco em segurança, conforme a variante.
Como escolher um sistema alternativo para testes
Se você deseja experimentar algum desses sistemas operacionais abertos, considere os seguintes pontos:
Objetivo de uso: nostalgia? Pesquisa acadêmica? Servidor? Essa resposta define o candidato ideal.
Curva de aprendizado: alguns projetos possuem comunidades maiores e documentação abundante (BSDs, FreeDOS). Outros exigem disposição para compilar código ou lidar com fóruns mais específicos (HelenOS, Hurd).
Compatibilidade de hardware: verifique se o sistema reconhece seus dispositivos. A ausência de drivers é o maior desafio para alternativas menos populares.
Ambiente de testes: use máquinas virtuais (VirtualBox, QEMU) ou hardware secundário para evitar impactos na estação principal.
Quem mantém viva essa diversidade
A pluralidade de sistemas operacionais abertos sobrevive graças a redes de voluntários, universidades e, em alguns casos, empresas que dependem de características muito específicas. Mesmo quando um projeto não atinge popularidade ampla, seus conceitos podem influenciar arquiteturas futuras. O valor não reside apenas na adoção direta, mas no arsenal de ideias que se torna disponível para a comunidade.
Além disso, essas iniciativas criam espaços de aprendizado prático. Participar do desenvolvimento de um kernel — seja enviando correções de bugs, melhorando documentação ou testando pacotes — é experiência rara que amplia a compreensão de como softwares dialogam intimamente com o hardware.
O futuro dos sistemas operacionais abertos
A história mostra que novos kernels costumam nascer quando alguém enxerga limitações nos paradigmas dominantes ou deseja experimentar modelos teóricos na prática. Por isso, é plausível esperar que surjam outros concorrentes ao lado dos nove aqui apresentados. Enquanto houver curiosidade humana e hardware disponível, haverá terreno fértil para inovação.
Também é provável que projetos já consolidados continuem se influenciando mutuamente. Ferramentas criadas em um BSD podem migrar para o Linux; conceitos de modularidade do Hurd podem inspirar melhorias de segurança em outros kernels; a simplicidade do FreeDOS pode orientar soluções para dispositivos embarcados. Assim, cada peça da engrenagem open source colabora para a evolução conjunta.
Conclusão
Ao percorrer o universo de sistemas operacionais abertos que não são Linux, percebemos que há muito mais do que curiosidades de museu. Cada projeto carrega experimentos de design, lições históricas e, sobretudo, comunidades dispostas a compartilhar conhecimento. Para entusiastas da computação, mergulhar nesses sistemas é oportunidade de experimentar arquiteturas distintas, resgatar soluções do passado e, quem sabe, contribuir para inovações que refletirão no futuro da tecnologia.
Seja você um desenvolvedor em busca de novas perspectivas, um usuário curioso ou alguém que sente falta de um jogo clássico de DOS, há uma distro, imagem ISO ou repositório esperando para ser explorado. Aproveite e descubra qual deles desperta a sua próxima aventura digital.
Com informações de How-To Geek