Os documentários true crime imperdíveis que chegaram recentemente aos catálogos da Netflix e da HBO Max se convertem em um prato cheio para quem busca histórias reais marcadas por investigações, julgamentos e dilemas éticos que extrapolam as telas. A lista a seguir reúne dez produções lançadas entre 2025 e 2026 que, além de repercutirem em premiações e nos debates públicos, ajudam a compreender o funcionamento das engrenagens da justiça, da mídia e da própria mente humana.
Entre séries e longas-metragens, o recorte abrange desde cyberbullying que culmina em caso de FBI até crimes de ódio racial, passando por seitas religiosas e desaparecimentos de minorias. A curadoria prioriza títulos que receberam boa avaliação da crítica, alcançaram significativa audiência nos streamings ou provocaram discussões sociais relevantes. Confira, a seguir, sinopses aprofundadas, dados oficiais e razões para maratonar cada produção.
1. Número Desconhecido: Catfishing na Escola (2025)
Primeiro longa dirigido por Skye Borgman a figurar na lista, “Número Desconhecido: Catfishing na Escola” retoma um caso de perseguição virtual que escalou rapidamente de mensagens anônimas para uma situação de terror psicológico dentro de um ambiente escolar norte-americano. A narrativa acompanha os adolescentes Lauryn Licari e Owen McKenny enquanto a avalanche de ameaças anônimas, inicialmente restrita à internet, passa a interferir na rotina da instituição de ensino e na saúde mental dos envolvidos.
Com 1h34 de duração, o filme incorpora depoimentos de familiares, colegas, autoridades e agentes do FBI que assumiram a investigação. A diretora opta por intercalar entrevistas com recriações audiovisuais discretas, evitando espetacularização e mantendo o foco na gravidade do cyberbullying. Avaliado em 6,7 no IMDb e com 85% de aprovação no Rotten Tomatoes, o título é considerado didático ao mostrar como lacunas na educação digital podem deixar jovens vulneráveis a ataques coordenados. Disponível na Netflix, o documentário se tornou referência em debates sobre segurança on-line em escolas dos Estados Unidos.
2. Meu Pai, o Assassino BTK (2025)
No mesmo ano, Skye Borgman lança “Meu Pai, o Assassino BTK”, mas desta vez desloca o eixo narrativo dos crimes para o impacto familiar. O assassino em questão é Dennis Rader, também conhecido como BTK (sigla em inglês para “amarrar, torturar, matar”), condenado por dez homicídios cometidos entre 1974 e 1991. O longa, de 1h33, se sustenta na perspectiva de Kerri Rawson, filha do serial killer, que revive a descoberta traumática da verdadeira identidade do pai.
Ao colocar em primeiro plano o sentimento de negação e culpa de parentes de criminosos, a obra amplia o debate sobre responsabilidade coletiva e saúde mental. Apesar de pontuar 6,2 no IMDb, a recepção da crítica elogia a sensibilidade com que Borgman evita a glamurização da violência. A produção está disponível na Netflix e é usada em cursos universitários de criminologia para ilustrar a chamada “vitimização colateral”, quando as famílias dos autores de delitos também sofrem consequências profundas.
3. A Vizinha Perfeita (2025)
Indicado ao Oscar 2026 de Melhor Documentário, “A Vizinha Perfeita” se notabiliza por expor as tensões raciais e as controvérsias em torno das leis de autodefesa nos Estados Unidos. Dirigido por Geeta Gandbhir e com 1h36 de duração, o filme reconstrói, a partir de imagens de câmeras corporais da polícia, o conflito entre as vizinhas Ajike “Aika” Owens e Susan Lorincz, que terminou em homicídio.
Para além da tragédia individual, a obra escancara como preconceitos raciais podem nortear interpretações legais e decisões jurídicas. Com nota 7,1 no IMDb e 99% no Rotten Tomatoes, o documentário estimula debates sobre o princípio “Stand Your Ground”, legislação que permite o uso letal da força em suposta autodefesa. A Netflix investiu forte na divulgação, apostando em painéis de discussão com juristas e organizações de direitos civis, o que transformou a produção em case de engajamento social na plataforma.
4. Desaparecidas: Caça ao Assassino de Long Island (2025)
A minissérie de três episódios mergulha no enigmático caso de desaparecimentos femininos em Long Island que, anos depois, levaria à prisão do suposto serial killer Rex Heuermann. Sob direção de Geeta Gandbhir, a série foca o desaparecimento de Shannan Gilbert em 2010, cujo telefonema para o 911 levou a polícia a descobrir vários corpos enterrados em Gilgo Beach.
Com tempo total aproximado de 150 minutos, a narrativa detalha falhas investigativas e a luta das famílias das vítimas para manter o caso vivo na mídia. A presença de Mari Gilbert, mãe de Shannan, oferece forte carga emocional, inclusive em cenas de confrontos públicos com autoridades. Pontuando 7,1 no IMDb, o título é considerado imprescindível para quem estuda a interação entre pressão popular e eficiência policial. Disponível na Netflix, impulsionou pesquisas sobre desaparecimentos não solucionados em outras regiões costeiras dos EUA.
5. Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt (2025)
Também sob a batuta de Skye Borgman, “Influencer do Mal” investiga a parceria tóxica entre a terapeuta Jodi Hildebrandt e a criadora de conteúdo Ruby Franke, conhecidas por pregar disciplina rígida em um canal familiar no YouTube. O escândalo veio à tona em 2023, quando um dos filhos de Ruby escapou da casa de Hildebrandt com evidentes sinais de maus-tratos, gerando comoção global.
Com 1h40, o documentário combina depoimentos de investigadores, registros judiciais e entrevistas exclusivas com Kevin Franke, ex-marido de Ruby. A obra, avaliada em 6,1 no IMDb, lança luz sobre uma zona cinzenta frequente no universo digital: até que ponto a autoridade atribuída a influenciadores pode mascarar abusos graves? A Netflix programou o lançamento para coincidir com as audiências finais do caso, aumentando a procura pelo título e impulsionando debates sobre regulamentação de conteúdo infantil on-line.
6. Murder in Monaco (2025)
Dirigido por Hodges Usry, “Murder in Monaco” revisita o incêndio de 1999 que vitimou Edmond Safra, banqueiro libanês-brasileiro entre os mais ricos do planeta à época. Com duração de 1h40, o filme questiona a condenação do enfermeiro Ted Maher, que confessou ter iniciado o fogo, mas anos depois alegou inocência. Entrevistas com especialistas forenses e uma reconstituição em 3D da cena do crime ampliam a análise, sugerindo possíveis inconsistências no julgamento.
Ao trazer documentos de cortes internacionais e testemunhos inéditos, a produção atingiu 6,5 no IMDb. A recepção destaca a postura equilibrada do diretor, que evita assumir uma tese definitiva, mas evidencia lacunas na investigação inicial. Disponível na Netflix, o documentário reacendeu interesse acadêmico em casos de confissão sob pressão e em erros judiciais de alta repercussão midiática.
7. Aileen: Rainha dos Assassinos em Série (2025)
A histórica serial killer Aileen Wuornos, já tema de diversas obras de ficção, ganha novo retrato documental pelas lentes de Emily Turner. Com 1h44, “Aileen: Rainha dos Assassinos em Série” utiliza arquivos judiciais e uma entrevista inédita gravada na prisão para compor perfil psicológico complexo da criminosa que alegava ter agido em autodefesa contra clientes que a violentariam.
Com pontuação 6,1 no IMDb, o filme se diferencia ao contextualizar a vida de abandono infantil e violência estrutural sofrida por Wuornos, além de discutir a transformação de seu caso em produto cultural — incluindo o premiado filme “Monster: Desejo Assassino” (2003). A Netflix incluiu o título em sua aba “Mulheres na História”, ampliando a visibilidade e fomentando discussões sobre gênero, classe social e pena de morte nos Estados Unidos.
Imagem: Reprodução
8. Incidente Crítico: Morte na Fronteira (2025)
Único da lista hospedado na HBO Max em vez da Netflix, “Incidente Crítico: Morte na Fronteira” é dirigido por Rick Rowley e dura 1h27. O caso em foco é o falecimento do imigrante mexicano Anastasio Hernández-Rojas em 2010, quando estava sob custódia da Patrulha da Fronteira. O documentário mostra como um vídeo gravado por testemunhas, divulgado anos depois, impulsionou investigações que culminaram em debates na Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Com nota 5,9 no IMDb, a obra é elogiada pela abordagem jornalística que entrelaça entrevistas de parentes, advogados e agentes federais. A produção sublinha falhas sistêmicas e acusações de encobrimento interno, fornecendo material robusto para discussões sobre imigração, uso da força e accountability de agentes do Estado.
9. Sobrevivendo às Testemunhas de Jeová (2026)
Produção espanhola dividida em três episódios, “Sobrevivendo às Testemunhas de Jeová” disseca o funcionamento interno da seita religiosa a partir de relatos de ex-membros e análises de especialistas como o advogado Carlos Bardavío, o teólogo Luis Santamaría e o psicólogo Miqueas Henares. Dirigida por Marc Smerling, a minissérie capta conflitos familiares, processos judiciais e denúncias de coerção social.
Embora ainda sem avaliações oficiais no IMDb ou Rotten Tomatoes, a obra atraiu rapidamente a atenção de estudiosos da liberdade religiosa e de organizações de combate a abusos institucionais. Disponível na HBO Max, tornou-se fonte documental para jornalistas que cobrem casos de assédio psicológico e controle comportamental em grupos fechados.
10. Mulheres Perdidas do Alasca (2026)
Fechando a lista de documentários true crime imperdíveis, “Mulheres Perdidas do Alasca” — coprodução da Orit Entertainment com a Investigation Discovery — chega à HBO Max como obra de aproximadamente três horas, dividida em capítulos. Com produção executiva de Octavia Spencer, a investigação parte dos desaparecimentos de Veronica Abouchuk e Kathleen Jo Henry para iluminar a crise conhecida pela sigla MMIWG (Missing and Murdered Indigenous Women and Girls).
O documentário expõe índices alarmantes de violência contra mulheres indígenas no Alasca, falhas de comunicação entre agências policiais e o descaso histórico do poder público. Ao reunir depoimentos de ativistas, familiares e autoridades locais, o filme adquire caráter quase pedagógico, servindo como alerta para a urgência de políticas públicas específicas. Sem avaliações oficiais até o momento, a obra já é citada em relatórios de ONGs que monitoram crimes contra populações nativas.
Por que o true crime segue em alta?
A persistente popularidade dos documentários de crime real está relacionada a diversos fatores socioculturais. Em primeiro lugar, há a busca humana inata por entender comportamentos extremos e, com isso, antecipar ameaças. Além disso, as produções contemporâneas passaram a incorporar discussões sobre gênero, raça e tecnologia, conectando-se a pautas sociais que extrapolam o universo criminal.
Outro ponto relevante é a facilidade de acesso proporcionada pelos serviços de streaming. A Netflix, por exemplo, desenvolveu algoritmos que recomendam títulos baseados em padrões de visualização, potencializando o alcance de produções menores. Já a HBO Max aposta em curadorias editoriais e em debates pós-exibição, como lives e podcasts, para prolongar o ciclo de interesse do público.
Como maratonar de forma responsável
O consumo extensivo de conteúdos que retratam violência pode causar fadiga emocional, principalmente em espectadores sensíveis. Especialistas recomendam intervalos entre episódios e conversas abertas sobre o impacto psicológico desses materiais. Plataformas como a Netflix, inclusive, passaram a exibir avisos de gatilho (“trigger warning”) no início de alguns títulos, indicando temas sensíveis como abuso sexual ou violência gráfica.
Outro aspecto é a verificação de fontes. Embora todos os títulos listados baseiem-se em fatos documentados, a narrativa pode enfatizar determinados ângulos. Consultar processos judiciais, relatórios policiais e cobertura jornalística paralela ajuda a formar visão mais crítica, evitando que o entretenimento se sobreponha à realidade factual.
Conclusão
Seja pela ótica do drama humano, da análise forense ou das falhas institucionais, os dez documentários true crime imperdíveis apresentados oferecem panoramas variados e profundos sobre casos que chocaram o mundo entre 2025 e 2026. Ao mesmo tempo em que fornecem entretenimento de alta tensão, funcionam como material de reflexão sobre temas que vão de racismo estrutural a abuso de autoridade, passando pela influência avassaladora das redes sociais.
Para o espectador brasileiro, a facilidade de acesso via Netflix e HBO Max, somada à crescente oferta de legendas e dublagens em português, torna a experiência ainda mais imersiva. Ao escolher um ou vários títulos da lista, vale lembrar que as histórias reais por trás das câmeras carregam vidas interrompidas, famílias marcadas e comunidades inteiras em busca de justiça — elementos que, em última instância, justificam e sustentam a relevância duradoura do gênero.
Com informações de TechTudo