Operação Gatonet bloqueia apps piratas: a expressão, que nos últimos meses explodiu no Google Trends, resume o maior cerco já realizado contra serviços de IPTV ilegal na América Latina.
Entre novembro e dezembro de 2025, a ação coordenada pelas autoridades argentinas, com apoio da Polícia Federal brasileira e da Alianza Contra la Piratería Audiovisual, derrubou mais de 30 plataformas, incluindo Eppi Cinema, My Family Cinema e BTV.
O efeito dominó atingiu 4,6 milhões de usuários no Brasil, expôs riscos de segurança digital e reacendeu o debate sobre direitos autorais, consumo consciente e o futuro do mercado de streaming.
O que foi a Operação Gatonet?
A Operação Gatonet surgiu para combater o chamado “gatonet” — termo popular que designa serviços de TV ou streaming pirata que redistribuem canais pagos, filmes e séries sem licença.
Segundo a Procuradoria Federal de Crimes Cibernéticos de San Isidro, na Argentina, investigações iniciadas em 2024 mapearam que a maioria dos servidores dos aplicativos estava hospedada em Buenos Aires, enquanto setores de administração, finanças e tecnologia operavam a partir da China. Essa estrutura transnacional dificultava a aplicação de leis de um único país e exigiu articulação internacional.
Em agosto de 2025, agentes localizaram o “centro de comando” dos serviços piratas: um escritório responsável por marketing e vendas globais. Com base nessas descobertas, a Justiça argentina solicitou o desligamento dos servidores e o bloqueio de domínios de dezenas de plataformas.
Os dois grandes momentos da ofensiva
Primeira onda (1.º de novembro de 2025)
Foram desligados 14 serviços, incluindo My Family Cinema, TV Express, Vela Cinema, Cinefly, Vexel Cinema, Humo Cinema, Yoom Cinema, Bex TV, Jovi TV, Lumo TV, Nava TV, Samba TV e Ritmo TV, além do próprio Eppi Cinema.
Segunda onda (30 de novembro e 1.º de dezembro de 2025)
A lista cresceu com BTV, Red Play, Blue TV, Duna TV, Super TV Premium, Football Zone, Mega TV, PLUSTV e outros. Todos usavam modelo semelhante: assinaturas baratas (de US$ 3 a US$ 5 por mês) para distribuir conteúdo protegido.
As duas fases ocorreram em fins de semana, estratégia pensada para diminuir a chance de reconfiguração rápida dos serviços. Ao todo, mais de 30 aplicativos ficaram fora do ar.
Por que os aplicativos caíram?
Os serviços infringiam duas frentes legais:
1. Lei de Direitos Autorais – redistribuição não autorizada de séries, filmes, eventos esportivos e canais de TV.
2. Lei Geral de Telecomunicações (art. 183) – oferta clandestina de telecomunicações, já que muitos vendiam pacotes completos de TV a cabo sem concessão.
Somam-se a isso equipamentos não homologados pela Anatel, como TV Boxes modificadas, consideradas infração regulatória grave.
Principais serviços afetados
Eppi Cinema: o mais procurado no Brasil
O Eppi Cinema era popular por oferecer filmes, séries de plataformas consagradas (Netflix, HBO Max, Amazon Prime Video, Disney+) e transmissões esportivas ao vivo. Em seu pico, o aplicativo acumulou 1.200 reclamações no Reclame Aqui entre 26 de outubro e 3 de novembro de 2025; 698 dessas em um único dia.
Assinaturas chegavam a R$ 200 por ano. Usuários relataram ter pago o valor poucos dias antes do bloqueio, ficando sem qualquer perspectiva de ressarcimento. Além disso, a empresa já tinha histórico de driblar ações judiciais: antes chamada My Family Cinema e, depois, Duna TV.
My Family Cinema: o pioneiro entre os piratas populares
Com mensalidade de R$ 20 ou anual de R$ 200, o My Family Cinema foi bloqueado em 1.º de novembro de 2025. Entre 1 e 3 de novembro, somou 234 novas queixas no Reclame Aqui, além das 484 já registradas em 2025. O app operava, sobretudo, em TV Boxes não homologados.
BTV & BTV Box: o modelo híbrido de hardware e assinatura
A BTV se diferenciava por vender o aparelho físico (de R$ 300 a R$ 500) e cobrar R$ 100 por ano de assinatura. Somou 791 reclamações de janeiro a outubro de 2025 e outras 96 nos três primeiros dias de novembro, após o erro 503 (“serviço indisponível”) tomar conta das telas.
Duna TV, Blue TV, Red Play Live e afins
Mais de 30 nomes — Duna TV, Blue TV, Red Play Live, Super TV Premium, Football Zone, Mega TV, PLUSTV e outros — operavam sob o mesmo esquema: assinaturas módicas para driblar direitos autorais. Quando um era barrado, renascia com novo nome e domínio.
Impacto imediato para os 4,6 milhões de usuários
1. Perda total de acesso – assinantes mensais, semestrais ou anuais ficaram offline da noite para o dia.
2. Prejuízo financeiro – sem nota fiscal válida e sem contrato formal, não há mecanismo de reembolso.
3. Riscos à segurança digital – boa parte dos APKs carregava adware, malware e solicitava permissões de acesso a dados sensíveis.
4. Insegurança jurídica – usar serviços ilegais não é crime para o usuário no Brasil, mas a posse de TV Box adulterada pode configurar infração à legislação de telecomunicações.
Por que tanta gente ainda aderiu?
O baixo custo é o argumento mais citado. Em vez de assinar vários streamings, muitos viam vantagem em pagar R$ 20 por mês para ter “tudo”. Há também o fator conveniência: uma única interface reunia filmes de estúdios diferentes, futebol ao vivo e canais de TV fechada.
Outra camada é a falta de informação. A venda de TV Boxes ocorria em varejistas aparentemente confiáveis, sem alerta claro de ilegalidade. Usuários só descobriram o problema quando viram as telas de erro.
Imagem: (Imagem/Reprodução)
Riscos de segurança que poucos consideravam
Aplicativos piratas costumam exigir a instalação de APKs fora da Play Store. Sem a revisão de segurança do Google, esses arquivos podem conter:
• Malware para minerar criptomoedas, elevando consumo de energia;
• Keyloggers capazes de espionar senhas bancárias;
• Adware que exibe anúncios invasivos e captura hábitos de navegação.
Além disso, TV Boxes não homologadas podem causar curto-circuito ou interferir em redes Wi-Fi vizinhas, explica a Anatel.
O ciclo de troca de nomes: será que voltam?
Há precedentes de serviços que “renascem” sob outra marca. O próprio My Family Cinema virou Eppi Cinema, depois Duna TV. Porém, a Operação Gatonet bloqueia apps piratas de forma mais abrangente do que ações anteriores, atingindo marketing, servidores e contas bancárias dos responsáveis.
Especialistas afirmam que o retorno não é impossível, mas exigirá reerguer toda a infraestrutura fora do radar internacional — cenário custoso e arriscado.
O que usuários podem fazer agora?
1. Remover APKs suspeitos do celular ou da TV Box.
2. Restaurar configurações de fábrica em dispositivos que rodavam os apps, reduzindo chance de malware persistente.
3. Buscar alternativas legais, muitas delas gratuitas ou com preços acessíveis.
4. Denunciar revendas que ainda ofereçam TV Boxes piratas à Anatel.
Alternativas legais de streaming
Um dos principais argumentos de quem recorre ao serviço pirata é o preço. No entanto, há opções que cabem em diferentes orçamentos — algumas até de graça.
Globoplay – R$ 29,90/mês. Destaque para novelas, jornalismo ao vivo, séries nacionais e catálogo internacional.
Netflix – Planos a partir de R$ 20,90/mês (com anúncios). Oferece downloads para assistir offline.
Amazon Prime Video – R$ 19,90/mês (inclui frete grátis e outros serviços da Amazon).
Disney+ – R$ 33,90/mês (padrão) ou R$ 43,90/mês (premium) com até quatro telas.
HBO Max (agora Max) – R$ 34,90/mês. Catálogo da HBO, Warner Bros. e DC.
Pluto TV – Gratuito. Sustentado por anúncios, reúne canais ao vivo e conteúdo sob demanda.
Tubi – Gratuito. Milhares de filmes e séries apoiados por publicidade.
Como economizar nos serviços oficiais
1. Planos com anúncios – Netflix e, em breve, outros concorrentes oferecem mensalidades reduzidas com intervalos comerciais curtos.
2. Assinaturas anuais – Disney+ e Amazon Prime aplicam desconto para pagamento de 12 meses de uma vez.
3. Combos e parcerias – Algumas operadoras de telefonia incluem streaming nos planos de internet ou celular.
4. Compartilhamento familiar oficial – Plataformas permitem perfis diferentes na mesma conta, dentro das regras de uso.
Benefícios de ficar na legalidade
• Suporte técnico oficial, chat 24 h ou SAC nacional.
• Catálogo em alta definição sem risco de instabilidade.
• Downloads para ver offline sem VPN.
• Garantia de que dados não serão vendidos ou usados sem consentimento.
Perspectivas para o futuro do combate à pirataria
A Alianza Contra la Piratería Audiovisual indica que 2025 foi apenas o início de um esforço contínuo. A tendência é que ações semelhantes se repitam em outros países da região, trocando informações de IP, contas bancárias e servidores. O Brasil, por sua vez, ganhou impulso para avançar em projetos de lei que facilitem bloqueios judiciais rápidos.
Gigantes do entretenimento defendem ainda medidas educativas. A ideia é mostrar que a pirataria acarreta prejuízo não apenas aos estúdios, mas também aos criadores independentes e à economia criativa do país.
Reflexões finais
A queda de Eppi Cinema, BTV, My Family Cinema e companhia representa um divisor de águas. Para o usuário, é o lembrete de que serviços “baratos demais” podem custar caro em segurança digital, perda de dinheiro e frustração. Para o mercado, é mais um alerta de que o excesso de plataformas e assinaturas onera o público e estimula atalhos ilegais.
Resta ao consumidor ponderar: pagar um pouco mais por estabilidade, qualidade de imagem, atendimento e respeito à lei, ou arriscar cifrar seus dados em um servidor clandestino que pode desaparecer a qualquer momento? A resposta, reforçada agora pela Operação Gatonet que bloqueia apps piratas, parece cada vez mais clara.
O streaming legítimo ainda tem desafios — preço, fragmentação de catálogos, restrições de compartilhamento —, mas oferece caminhos para economizar dentro da lei. Cabe às empresas aprimorar modelos de assinatura flexíveis, e aos usuários, valorizar a produção de conteúdo que consomem.
No fim das contas, a verdadeira “vantagem” está na tranquilidade de assistir ao filme favorito sem a angústia de ver a tela preta no meio do capítulo — ou de descobrir que seus dados bancários foram parar em um servidor anônimo do outro lado do mundo.
Conclusão: a ofensiva contra a pirataria não é apenas policialesca; é também pedagógica. Se milhões de pessoas recorreram ao gatonet, o mercado oficial precisa dialogar com essas demandas de preço e praticidade. Enquanto isso, a legislação se torna mais rígida, e o risco de confiar em um APK desconhecido ultrapassa qualquer economia imediata. A escolha, agora, está nas mãos — e nos bolsos — do espectador.
Com informações de TechTudo