“Por que ainda escolho o Windows?” — a pergunta ressurge todas as vezes que alguém me convida a dar o salto definitivo para o Linux. Apesar dos avanços notáveis das distribuições de código aberto, ainda há fatores concretos que me fazem manter o sistema da Microsoft como ambiente principal de trabalho e lazer.
Neste artigo, mergulhamos nos motivos que sustentam essa escolha, analisando as limitações atuais do Linux em três frentes: biometria, gerenciamento de janelas em ambientes multitela e compatibilidade de softwares profissionais e de jogos. Tudo baseado em fatos recentes, sem invenções ou especulações.
1. A importância crescente da autenticação biométrica
Quando a biometria desembarcou nos smartphones, muitos imaginaram que a adoção em computadores seria lenta. O mercado mostrou o oposto: fabricantes passaram a equipar notebooks de médio e alto padrão com leitores de digitais e câmeras infravermelho capazes de reconhecer rostos em segundos. No ecossistema Windows, essa capacidade ganhou um nome-guarda-chuva: Windows Hello.
Durante a instalação do Windows 10 ou 11, o usuário é convidado mais de uma vez a ativar o recurso. O convite não é apenas marketing: ele está profundamente integrado ao sistema. Basta pressionar o botão de energia ou abrir a tampa do laptop para que a face cadastrada destrave a sessão. A autenticação serve também para aprovar mudanças de configuração, proteger senhas salvas no navegador Edge e autorizar pagamentos em serviços compatíveis.
No mundo Linux, a implementação existe, mas não alcança a mesma fluidez. O projeto fprintd, comunitário, tenta cobrir o maior número possível de sensores de impressão digital disponíveis no mercado. Já o reconhecimento facial depende de soluções como o howdy, que, apesar de engenhoso, exige linha de comando, configuração manual de perfis e nem sempre conversa bem com as atualizações de kernel.
O resultado prático é simples: quem liga o computador querendo trabalhar de imediato, sem obstáculos técnicos, sente maior conforto no Windows. A biometria “funciona e pronto”, sem a necessidade de pesquisar fóruns, recompilar módulos ou editar arquivos de configuração. É uma diferença de segundos por sessão, mas que, somada ao longo do dia, reduz o atrito e melhora a produtividade.
2. Gerenciamento de janelas: quando “Windows” faz jus ao nome
Não é apenas trocadilho: o forte do Windows sempre foram as janelas. O Windows 11 refinou a experiência com o recurso Snap Layouts, acionado ao passar o cursor sobre o botão maximizar. Seis padrões diferentes surgem em um painel flutuante, permitindo encaixar duas, três ou quatro aplicações na tela sem arrastar manualmente as bordas.
Distribuições Linux oferecem múltiplas interfaces, de GNOME a KDE Plasma, passando por Cinnamon, XFCE e muito mais. Algumas contam com recursos semelhantes, mas nenhum alcança o equilíbrio entre simplicidade e poder que o Windows entrega fora da caixa. No KDE Plasma, por exemplo, a disposição lado a lado pode exigir configurações adicionais, e nem sempre o sistema recorda layouts ao reconectar um cabo HDMI.
Em estações de trabalho com múltiplos monitores, a diferença se aprofunda. Desconectar um projetor num auditório de aula ou desligar o segundo monitor no fim do expediente tende a reorganizar todas as janelas no Linux, forçando restauração manual. O Windows, por padrão, “lembra” onde cada aplicativo estava e devolve tudo ao seu lugar original quando a tela volta a ficar disponível.
Para usuários avançados, a Microsoft ainda libera, gratuitamente, o utilitário PowerToys, cujo módulo FancyZones eleva a outro nível a arte de dividir a área de trabalho. Quem edita vídeos, programa ou analisa dados em planilhas gigantes já percebeu o ganho de performance mental ao não perder tempo reposicionando janelas.
3. Ecossistema de softwares: onde quantidade e legado contam
Qualquer sistema operacional nasce e cresce em torno de um tripé: hardware compatível, interface intuitiva e, sobretudo, aplicações capazes de resolver problemas concretos. O Windows mantém liderança de mercado no desktop desde os anos 1990, e isso construiu um repositório praticamente inesgotável de programas comerciais e gratuitos.
3.1. Jogos eletrônicos: a pedra no sapato pinguim
Nos últimos cinco anos, o cenário gamer no Linux viveu revolução silenciosa graças ao Steam Proton, camada de compatibilidade que usa Wine e tecnologias afins para abrir títulos originalmente criados para DirectX. Hoje, milhares de jogos rodam de forma respeitável, incluindo produções AAA.
Entretanto, o calcanhar de Aquiles se chama anti-cheat. Ferramentas de segurança como Easy Anti-Cheat (EAC) operam em nível de kernel no Windows, monitorando acessos suspeitos que possam indicar trapaças. Em Linux, tais módulos não têm permissão para atuar tão profundamente, restringindo sua eficácia. O resultado é a proibição ou a instabilidade em partidas competitivas, especialmente em títulos de tiro em primeira pessoa e MOBAs populares.
Para quem leva eSports a sério, a incerteza pesa. Imagine treinar 200 horas e, na hora de entrar em um torneio, descobrir que o servidor oficial recusa jogadores vindo do Proton. Ainda que existam indícios de que a própria Valve e desenvolvedores estejam tentando contornar cada limitação, a experiência em Windows continua mais direta: instalar, abrir, jogar.
3.2. Produção artística e profissional
Se o mundo gamer sofre, o universo criativo enfrenta obstáculos ainda maiores. Suites como Adobe Creative Cloud — Photoshop, Premiere Pro, After Effects, Illustrator — e pacotes técnicos da Autodesk, a exemplo de AutoCAD e Maya, dominam estúdios de design, agências de publicidade, produtoras de vídeo e escritórios de engenharia.
Imagem: Lucas Gouveia
Embora existam alternativas open source robustas — GIMP, Krita, DaVinci Resolve (edição gratuita) e Blender são provas vivas —, equipes consolidadas dependem dos padrões de mercado entregues por Adobe e Autodesk. Rodar essas ferramentas no Linux implica dual-boot, máquina virtual parruda ou ajustes no Wine, todos sujeitos a falhas após cada atualização automática.
Considerações semelhantes valem para nichos como contabilidade, laboratórios de pesquisa que utilizam aparelhos conectados a softwares proprietários e empresas que adotam sistemas de gestão ERP exclusivos para Windows. O custo de migração muitas vezes ultrapassa as vantagens de segurança e liberdade associadas ao Linux.
4. Onde o Linux brilha — e por que ainda não basta
Seria injusto ignorar as qualidades que fazem legiões abraçarem o pinguim. Estabilidade de servidores, licença gratuita, transparência de código e desempenho leve em hardware modesto são trunfos inquestionáveis. Em um cenário corporativo, poder personalizar cada componente do sistema — do gerenciador de inicialização ao ambiente gráfico — gera economias significativas de licenças e permite integração fina com infraestruturas DevOps modernas.
Contudo, o cotidiano do usuário comum gira em torno de conveniência. Ao chegar em casa, depois do expediente, a pessoa quer assistir a um streaming sem configurar decoders, conversar em videoconferência com a câmera funcionando de primeira e baixar um novo jogo sem pesquisar se o anti-cheat bloqueará o login. Nessa métrica, o Windows ainda oferece o “clique e use” que muitos buscam.
5. A curva de adoção e o fator tempo
Curiosamente, o principal adversário do Linux não é o Windows, mas o relógio. Quanto mais horas um indivíduo investe em aprender atalhos, solucionar bugs ou automatizar scripts, mais afiado fica seu domínio da plataforma. O Windows se beneficia do oposto: ele entrega o pacote pronto, reduzindo a necessidade de estudo prévio.
No segmento corporativo, cada minuto conta na planilha de custos. Treinar milhares de colaboradores num novo sistema demanda investimento em cursos, suporte técnico e ajustes de processo. Até que a familiaridade se instale, a produtividade cai, e esse hiato de desempenho pode ser fatal em mercados ultracompetitivos.
6. Segurança: kernel-level, patches e controvérsias
Vale mencionar que, embora o Windows Hello torne a autenticação biométrica simples, ele também amplia a superfície de ataque caso falhas de firmware ocorram. Já no Linux, a insistência comunitária em manter o anti-cheat fora do kernel deriva justamente de preocupações com privacidade e integridade do sistema.
Assim, a discussão transcende conveniência: é um dilema entre controle absoluto do usuário sobre seu computador e a busca por mecanismos mais rigorosos contra fraudes online. Até que um meio-termo seja encontrado, gamers e profissionais seguirão avaliando custo-benefício a cada caso.
7. Próximos passos do ecossistema aberto
Empresas como a própria Microsoft vêm sinalizando maior abertura ao Linux. O Windows Subsystem for Linux (WSL) prova que a gigante de Redmond reconhece o valor do pinguim para desenvolvedores. Paralelamente, fabricantes de hardware começam a colaborar upstream, enviando drivers diretamente ao kernel principal. Quando câmeras infravermelho e sensores de digitais passarem a ter suporte oficial na origem, parte do “trabalho braçal” exigido hoje desaparecerá.
Outro vetor promissor é o Wayland, protocolo de servidor gráfico moderno que pretende substituir o X11. Com APIs mais claras, Wayland deve simplificar a comunicação entre dispositivos de entrada biométrica e ambientes de desktop, encurtando a distância que separa, por exemplo, a experiência do Windows Hello.
8. Conclusão: a escolha permanece individual
No fim das contas, optar por Windows, Linux ou mesmo macOS depende de prioridades. Segurança, personalização, economia de licenças, suporte corporativo, linhas de produção criativa, comunidade de jogos competitivos — cada critério pesa de forma distinta para cada público.
Se a pergunta for “Por que ainda escolho o Windows”, a resposta se apoia em três pilares concretos hoje: autenticação biométrica integrada e sem fricção, gerenciamento de janelas mais maduro em ambientes com múltiplos monitores e um ecossistema de softwares — de AAA a ferramentas de design — que simplesmente roda sem gambiarras. Ninguém afirma que permanecerá assim para sempre. A história recente mostra que o Linux evolui rápido, e talvez num futuro não tão distante esse artigo precise de uma continuação invertida: “Por que troquei o Windows pelo Linux”. Por ora, porém, os argumentos permanecem sólidos.
Com informações de How-To Geek