Os Terminais Linux com TUIs práticos já não intimidam tanto quem está acostumado a cliques e janelas. Graças a interfaces em modo texto bem-desenhadas, é possível monitorar rede, copiar arquivos ou ouvir música sem decorar dezenas de comandos.
Neste artigo, destrinchamos quatro aplicativos em modo TUI — bandwhich, Caligula, kew e nnn — que transformam a linha de comando em um ambiente mais visual, produtivo e, sobretudo, acessível. Cada ferramenta cumpre uma tarefa específica e mostra que é perfeitamente viável trabalhar no console sem ser um “guru” do Bash.
Você verá como instalar, configurar e aproveitar cada solução, entendendo para quem ela foi criada, por que vale a pena adotá-la e quais pontos de atenção deve considerar. Vamos do monitoramento de tráfego de rede à gravação de imagens em USB, passando pelo gerenciamento de arquivos e pela audição de sua biblioteca musical. Tudo para provar que os Terminais Linux com TUIs práticos são o próximo passo para quem deseja produtividade sem abrir mão da leveza do texto puro.
Por que os TUIs voltaram a ganhar popularidade?
A primeira interface de computador que muita gente conheceu foi, na prática, uma TUI: um bloco de caracteres verdes ou brancos sobre fundo preto, em que cada tecla digitada era imediatamente refletida na tela. Décadas depois, mesmo com interfaces gráficas altamente polidas, as TUIs ressurgem no Linux por três motivos principais:
Leveza: aplicações em modo texto consomem menos recursos que equivalentes gráficas, algo essencial em servidores, computadores antigos ou máquinas virtuais.
Produtividade: com atalhos de teclado bem planejados, é possível executar tarefas em menos passos e sem alternar entre janelas.
Estética e comunidade: a cultura hacker sempre valorizou o terminal. Projetos abertos criam TUIs atraentes para vídeos, streams ou simples satisfação pessoal.
Com essas bases em mente, vamos mergulhar nos quatro utilitários que tornam os Terminais Linux com TUIs práticos uma ferramenta diária para qualquer usuário, do iniciante ao avançado.
bandwhich: tudo sobre sua rede em um único painel
O que é? bandwhich é um monitor de rede em tempo real. A interface em modo texto exibe, em linhas organizadas, cada processo que gera tráfego, a quantidade de dados enviada ou recebida, o adaptador usado, o destino e o PID correspondente.
Para quem serve? Quem administra servidores, trabalha em redes corporativas ou simplesmente é curioso sobre o que consome banda vai se beneficiar. Em vez de rodar comandos isolados, o usuário obtém uma visão consolidada, similar ao top, mas focada em rede.
Instalação
Via Snap (qualquer distribuição com suporte):
sudo snap install bandwhich
Arch Linux:
sudo pacman -S bandwhich
Demais distribuições: baixe o binário mais recente no repositório oficial, dê permissão de execução e mova-o para /usr/local/bin ou outro diretório do PATH.
Uso básico
A ferramenta requer privilégios de superusuário para capturar pacotes em toda a pilha de rede:
sudo bandwhich
Se desejar ver estatísticas de uso acumuladas, utilize a flag -t:
sudo bandwhich -t
Por que vale a pena?
bandwhich traduz endereços IP em nomes de host via DNS em tempo real, o que facilita identificar serviços na nuvem, servidores de atualização de software ou domínios suspeitos. A clareza visual evita que o usuário recorra a uma combinação de iftop, netstat e scripts personalizados.
Limitações
Exige privilégios de root e não grava logs persistentes, sendo ideal para inspeções pontuais. Para auditoria histórica, será preciso complementar com ferramentas como vnStat.
Caligula: gravação de ISOs no pendrive com gráfico de velocidade
O que é? Caligula simplifica o processo de gravar imagens .ISO e .IMG em unidades USB. Diferentemente de scripts manuais com dd — que podem destruir dados se você errar o disco —, a TUI de Caligula oferece verificação de checksum, seleção segura do dispositivo e um gráfico dinâmico mostrando a taxa de escrita.
Por que foi criado? Quem experimenta distribuições Linux ou mantém servidores sabe que baixar ISOs é rotina. Automatizar a gravação economiza tempo e reduz erros. Caligula atende justamente a esse nicho, fornecendo feedback visual e evitando que se digite parâmetros obscuros do dd.
Instalação
Arch Linux:
sudo pacman -S caligula
Cargo (para quem já compila projetos em Rust):
cargo install caligula
Outras distribuições: siga o guia oficial, que inclui pacotes pré-compilados e instruções de build.
Uso básico
Navegue até o diretório que contém a ISO, por exemplo ubuntu-desktop.iso, e execute:
caligula burn ubuntu-desktop.iso
O utilitário fará três etapas:
1. Exibe o SHA256 calculado para você comparar com o site oficial.
2. Lista os discos conectados, permitindo escolher o destino com as setas.
3. Inicia a gravação, apresentando um gráfico ASCII que revela picos de velocidade e o tempo restante.
Benefícios
O gráfico em tempo real ajuda a detectar gargalos de I/O. Além disso, Caligula impede a seleção acidental do disco de sistema, algo que já causou perdas irreversíveis para muitos usuários distraídos.
kew: sua coleção musical direto no console
O que é? kew é um reprodutor de música em modo texto que varre a pasta ~/Music e monta uma biblioteca navegável por setas. Ele exibe capa do álbum (se presente), waveform ou visualizadores de espectro, além de fila de reprodução.
Diferencial
A um só comando é possível tocar um artista, álbum ou playlist. Por exemplo:
kew smiths
O programa reconhece a string “smiths” e inicia a primeira faixa de sua coleção do The Smiths. Quer embaralhar? Basta adicionar a palavra-chave:
kew shuffle smiths
Imagem: Lucas Gouveia
Instalação
Debian/Ubuntu:
sudo apt install kew
Arch Linux (AUR):
yay -S kew
openSUSE Tumbleweed:
sudo zypper install kew
Controles rápidos
• F1/F2/F3 alternam entre visualizador, fila e navegação.
• Espaço pausa ou retoma a faixa.
• Seta Direita/Esquerda avança ou retrocede cinco segundos.
Para quem é? Quem mantém arquivos FLAC ou MP3 locais e não quer depender de streaming encontra em kew um aliado. O TUI consome poucos recursos e continua tocando mesmo se você fechar a sessão gráfica, ideal para servidores domésticos ou Raspberry Pi com caixa de som.
Limitações
kew não faz streaming de fontes online nem gerencia metadados. Caso precise de integração com serviços como Spotify, será necessário recorrer a aplicações externas.
nnn: gerenciador de arquivos veloz como poucos
O que é? O nnn (lê-se “n três”) é um navegador de arquivos que substitui a combinação de cd + ls. Ele abre na pasta atual e permite mover-se pelas setas, tocar Enter para acessar diretórios ou abrir arquivos, e Backspace (ou seta para a esquerda) para voltar.
Velocidade e design
Escrito em C, nnn prioriza eficiência. Até mesmo em discos grandes, a listagem aparece instantaneamente. Na parte inferior, um rodapé informa permissões, tamanho, data de modificação e, se for um arquivo executável, destaca-o com cores distintas.
Instalação
Debian/Ubuntu:
sudo apt install nnn
Fedora:
sudo dnf install nnn
Arch Linux:
sudo pacman -S nnn
openSUSE:
sudo zypper install nnn
Funcionalidades extras
• Marcadores: salve diretórios favoritos e volte com um único atalho.
• Plugins: há scripts prontos para comprimir arquivos, renomear em lote ou abrir editores externos.
• Montagem remota: combinado a sshfs, permite navegar em servidores via SSH.
Por que escolher nnn?
A curva de aprendizado é mínima e o ganho de produtividade é imediato. Usuários que ainda hesitam em adotar o terminal podem começar usando nnn como substituto de exploradores gráficos, gradualmente aprendendo comandos tradicionais.
Comparativo: quando usar cada TUI
• bandwhich — Diagnóstico de rede em tempo real; ideal para entender picos de tráfego ou processos suspeitos.
• Caligula — Gravação segura e transparente de imagens em USB; perfeito para entusiastas de distros e técnicos de suporte.
• kew — Reprodução local de músicas; conveniente para quem prefere bibliotecas próprias a serviços de streaming.
• nnn — Navegação de arquivos universal; substitui fluxos repetitivos de ls/cd e ainda adiciona recursos.
Boa práticas de segurança ao usar TUIs
Embora Terminais Linux com TUIs práticos sejam amigáveis, vale relembrar cuidados essenciais:
Privilégios mínimos: execute como root apenas o que realmente precisa — no nosso caso, bandwhich para captura de pacotes ou Caligula para gravar em dispositivos.
Verificação de checagem: sempre confira a integridade de ISOs no Caligula e verifique assinaturas PGP quando disponíveis.
Backups: antes de manipular discos no Caligula ou mover pastas pelo nnn, confirme que não há dados importantes sem cópia.
Como tornar o terminal seu ambiente principal
Adotar TUIs é só o primeiro passo. Para migrar grande parte do trabalho diário ao console, considere:
• Multiplexadores — tmux ou screen permitem dividir janelas e manter sessões persistentes.
• Editor de texto poderoso — vim ou nano com plugins adequados cobrem a maior parte das edições.
• Automação com scripts — combine nnn com scripts em Bash para renomeação em massa ou backup incremental.
• Tema coerente — escolha uma paleta de cores que favoreça leitura prolongada. TUIs costumam herdar o tema do seu emulador de terminal.
Dúvidas frequentes sobre TUIs no Linux
É necessário internet para usar esses aplicativos?
Somente bandwhich precisa de acesso de rede para capturar e resolver DNS; os demais operam off-line depois de instalados.
Posso usar em ambiente gráfico?
Sim. TUIs rodam em qualquer emulador de terminal, seja no GNOME Terminal, Konsole ou Alacritty. O diferencial é que podem ser usadas também no modo somente texto (tty).
Consomem muita bateria em laptops?
A renderização de caracteres é leve, logo o impacto é mínimo, sobretudo se comparada a UI gráficas com aceleração 3D.
Conclusão: TUIs como ponte entre o clique e o comando
A jornada rumo ao domínio do terminal não precisa começar com livros de 400 páginas sobre Bash. Os Terminais Linux com TUIs práticos introduzidos aqui oferecem uma transição suave. Eles demonstram que é possível usufruir do desempenho e da flexibilidade do console sem abrir mão de feedback visual e conveniência.
bandwhich expõe conexões de rede em tempo real; Caligula torna a criação de pendrives de boot tão segura quanto arrastar-e-soltar; kew devolve o prazer de ouvir álbuns inteiros locais; e nnn prova que navegar por diretórios pode ser tão ágil quanto em um gerenciador gráfico, porém com consumo irrisório de recursos. Experimente um de cada vez, incorpore-os ao fluxo diário e descubra como o terminal pode ser, sim, um aliado intuitivo e, por que não, elegante.
Com informações de How-To Geek