LibreOffice Online renasce após quase dois anos de pausa e volta a ser prioridade para a Document Foundation, responsável pela popular suíte de escritório de código aberto. A decisão reacende o sonho de ter um editor de textos, planilhas e apresentações acessível diretamente do navegador, sem custos de licença e controlado pela própria comunidade.
O anúncio, feito em um comunicado oficial da fundação, abre oficialmente o repositório de código e convida desenvolvedores do mundo inteiro a contribuir. O objetivo declarado é simples, porém ambicioso: “ter uma versão online feita pela comunidade e para a comunidade”. Nesta reportagem, detalhamos os bastidores da retomada, os desafios técnicos, o impacto para usuários comuns e para o mercado corporativo, além de explicar como essa iniciativa pode redefinir o ecossistema de software livre nos próximos anos.
Como chegamos até aqui
Para entender por que a frase LibreOffice Online renasce carrega tanto peso, é preciso revisitar uma longa linha do tempo. A gênese do projeto remonta ainda à era do StarOffice – adquirido pela Sun Microsystems em 1999 e posteriormente convertido em OpenOffice.org. Em 2010, divergências sobre o futuro do código levaram à criação do LibreOffice, hoje mantido pela Document Foundation.
Desde a década de 2000, vários protótipos tentaram levar a suíte de escritório à web. O primeiro, embrionário, consistia em um controle ActiveX hospedado em servidores Windows. Em 2011, um segundo experimento usou GTK 3 para renderizar a interface no servidor e transmiti-la como se fosse uma sessão de área de trabalho remota. Embora tecnicamente funcional, o consumo de banda e a latência tornavam a ideia inviável para produção.
A guinada mais promissora veio em 2015, quando a Collabora – empresa que comercializa soluções baseadas em LibreOffice – abraçou o desafio e criou a interface que, mais tarde, originaria o Collabora Online. Entretanto, o repositório oficial da Document Foundation seguiu em desenvolvimento intermitente, até ser arquivado em 2022 por falta de mantenedores dedicados.
Por que o projeto foi interrompido em 2022
Existem inúmeros motivos para uma iniciativa open source esfriar, mas no caso do LibreOffice Online pesaram especialmente três fatores:
1) Escassez de mão de obra voluntária: um projeto dessa magnitude exige profissionais familiarizados com C++, JavaScript, interfaces gráficas e protocolos de colaboração em tempo real – conjunto de habilidades ainda restrito.
2) Prioridades conflitantes: a versão desktop, disponível para Windows, macOS e Linux, é mantida por centenas de milhares de linhas de código. A cada ciclo de seis meses, há novas correções, suporte a formatos e melhorias de desempenho. Direcionar recursos para o online significava, na prática, deixar áreas cruciais descobertas.
3) Modelo de negócios indefinido: diferente de Google Docs e Microsoft 365, que lucram com assinaturas ou publicidade, a Document Foundation não pretende vender suporte empresarial nem manter uma nuvem própria. Sem perspectiva clara de retorno financeiro, muitos colaboradores corporativos priorizaram outros projetos.
O estopim da retomada em 2024
A decisão de reabrir o repositório partiu de três constatações recentes. Primeiro, a demanda de governos e escolas por plataformas autogerenciáveis disparou depois que a pandemia popularizou o ensino remoto. Segundo, o amadurecimento de tecnologias como WebAssembly, Canvas 2D e WebRTC tornou viável executar rotinas pesadas (por exemplo, renderizar uma tabela dinâmica) diretamente no navegador.
Por fim, cresceu a pressão comunitária. Fóruns como Reddit, Mastodon e as listas de discussão da própria TDF registraram número recorde de pedidos por uma suíte online livre que não exigisse a infraestrutura mais complexa do Collabora Online. Diante desse cenário, a fundação decidiu chamar novamente voluntários, revisar a arquitetura do código e estabelecer um roadmap transparente.
O que muda com o “renascimento”
Na prática, o retorno do desenvolvimento não significa que haverá um serviço na nuvem operado pela TDF, mas alguns avanços imediatos já foram delineados:
• Reabertura do repositório Git: todo o histórico foi desarquivado, possibilitando forks, issues e pull requests.
• Estrutura modular: o objetivo é desacoplar o motor de renderização LibreOfficeKit da camada de interface. Isso permitiria, por exemplo, que terceiros criem front-ends em React, Vue ou Svelte.
• Testes automatizados: um esforço coordenado de QA pretende aumentar a cobertura de testes para 80 %. Hoje, grande parte do código não é exercitada em cenários de integração contínua.
• Documentação unificada: Wiki e páginas de desenvolvedor receberão exemplos práticos de implantação via Docker, facilitando a vida de administradores escolares e de pequenas empresas.
Diferenças entre LibreOffice Online e Collabora Online
Uma dúvida recorrente é por que existe mais de uma iniciativa baseada no mesmo código. A Collabora contribui para o LibreOffice há anos e, de fato, grande parte das correções de segurança que chegam à versão de desktop vêm dos engenheiros da empresa. No entanto, os produtos possuem filosofias distintas.
Licenciamento e marca: Collabora Online é disponibilizado em duas modalidades: Community Edition (gratuita, mas autogerenciável) e Enterprise Edition (pago, com suporte). Já o LibreOffice Online, quando estabilizado, seguirá a licença MPL/LGPL original, sem camadas comerciais.
Integração com nuvens: Collabora optou por acoplar-se ao Nextcloud e a outras plataformas de colaboração. O LibreOffice Online pretende ser mais agnóstico, funcionando em servidores bare-metal, contêineres ou até mesmo pequenos NAS domésticos.
Ciclo de atualizações: a Collabora costuma oferecer releases mensais com backports de correções. A TDF planeja sincronizar a versão online com as grandes atualizações semestrais do LibreOffice desktop, simplificando a manutenção de recursos e de arquivos ODF.
Impacto para usuários finais
Embora a maior parte da base de usuários do LibreOffice ainda trabalhe em computadores tradicionais, o cenário tecnológico mudou. Um número crescente de escolas adotou Chromebooks, e instituições governamentais passaram a exigir software hospedado internamente por motivos de soberania de dados.
Nesse contexto, LibreOffice Online renasce com promessas tentadoras:
1) Colaboração em tempo real sem custo de licença: docentes poderão criar turmas, editar apostilas simultaneamente e acompanhar alterações usando apenas o navegador, algo que hoje depende de serviços proprietários.
2) Acessibilidade em dispositivos modestos: tablets de entrada ou PCs antigos, muitas vezes incapazes de rodar a versão completa, ganham sobrevida ao descarregar o processamento para o servidor.
3) Autonomia de dados: arquivos permanecem em um repositório local, evitando preocupações com legislações de privacidade estrangeiras.
Mercado de suítes online: onde a opção livre se encaixa
O segmento de produtividade em nuvem é dominado por dois gigantes: Google e Microsoft. Juntas, as empresas respondem por mais de 70 % do market share mundial, segundo estatísticas de consultorias como Gartner e IDC. Essa hegemonia se deve a uma combinação de conveniência, marketing e integração nativa com serviços correlatos (Drive, OneDrive, Teams, Meet e assim por diante).
Imagem: Corbin Davent
Para o ecossistema open source, a lacuna sempre residiu no fator “expectativa do usuário moderno”: mobilidade e colaboração instantâneas. O desktop isolado – por mais poderoso que seja – não satisfaz esse novo comportamento. Ao ressuscitar o projeto online, a Document Foundation passa a disputar um espaço que vai além da filosofia do código aberto: concorre pela atenção de quem precisa editar um documento rapidamente em qualquer tela.
Cabe ressaltar que a adoção de ferramentas proprietárias não é apenas uma decisão de TI, mas também política. Governos da Europa, América Latina e Ásia já impõem recomendações para uso de padrões abertos. Uma suíte online 100 % livre, sem coleta de dados, reforça essas políticas de soberania digital.
Desafios técnicos pela frente
A despeito do entusiasmo, há obstáculos robustos antes que possamos dizer que LibreOffice Online renasce de forma estável. Entre eles:
• Renderização fidedigna de documentos complexos: arquivos ODT ou DOCX avançados contêm macros, estilos aninhados e metadados. Replicar no navegador a exata formatação vista no desktop exige um motor gráfico extremamente preciso.
• Desempenho em colaborações massivas: enquanto o Google Docs foi concebido desde o início para dezenas de usuários simultâneos, o LibreOffice nasceu como aplicativo single-user. Converter operações locais de área de transferência, manipulação de cursores e controle de versões para um ambiente multiusuário é tarefa monumental.
• Otimização de largura de banda: em países com infraestrutura limitada, cada kilobyte importa. Técnicas de diff incremental, compressão Brotli e WebSockets persistentes precisam estar no cerne da arquitetura.
• Segurança: macros maliciosas em planilhas ou apresentações podem comprometer servidores se não forem adequadamente isoladas. Sandboxing via containers e mecanismos SELinux/AppArmor serão indispensáveis.
Estratégia de contribuição e governança
A Document Foundation deixou claro que não oferecerá suporte corporativo nem hospedagem. Ainda assim, assumirá o papel de curadora do código, zelando pela conformidade de licenças e coordenando o calendário de versões. Para isso, adotará o mesmo modelo de meritocracia já usado no desktop: quem submete patches regularmente ganha direito a voto em decisões técnicas.
Paralelamente, canais de comunicação foram reforçados. Há um grupo dedicado no Matrix/Element, uma lista de e-mails específica para LibreOffice Online e encontros quinzenais via videoconferência. A fundação incentiva contribuições não apenas de desenvolvedores, mas também de tradutores, redatores de documentação e especialistas em UX.
Monetização: há espaço para doações e parcerias?
Sustentar um projeto de longo prazo exige recursos. Sem um serviço em nuvem, a principal fonte de receita da TDF continuará sendo doações individuais e patrocínios institucionais. A fundação estuda, contudo, novos formatos:
• Treinamentos pagos: cursos oficinais sobre implantação em escolas e órgãos públicos.
• Certificação de prestadores: empresas qualificadas poderão usar um selo “Supported by LibreOffice Online Community” mediante taxa anual.
• Marketplaces de extensões: plugins voltados a fluxos de trabalho específicos (por exemplo, contabilidade pública) poderão ser comercializados por terceiros, com porcentagem revertida à fundação.
Calendário preliminar e próximos passos
A TDF não divulgou datas fechadas, mas o roteiro sugerido indica três marcos:
1) Alfa comunitária – prevista para o final do primeiro semestre: edição básica de documentos ODT com múltiplos usuários conectados em LAN.
2) Beta pública – início de 2025: suporte a formatos Microsoft, planilhas e apresentações; pacotes Docker oficiais no Docker Hub.
3) Versão 1.0 – alinhada ao LibreOffice 9.0 (possivelmente em 2026): compatibilidade avançada, APIs REST para integração e editor móvel responsivo.
O que esperar como usuário comum
Se você utiliza o LibreOffice no desktop, nada muda de imediato. Ainda levará, no mínimo, um ciclo de 12 a 18 meses para que a versão online seja considerada estável. Entretanto, o simples fato de que LibreOffice Online renasce significa mais opções no horizonte. A longo prazo, será possível sincronizar documentos entre dispositivos, iniciar rascunhos no celular e concluir revisões em um PC, tudo dentro de um universo 100 % livre.
A comunidade, por sua vez, ganha fôlego adicional. O senso de pertencimento aumenta quando contribuições podem afetar milhões de usuários da web, não apenas quem instala pacotes no computador.
Conclusão: um passo necessário para o futuro do software livre
O mundo da produtividade digital não é mais o mesmo de 2010. Mobilidade, colaboração em tempo real e integração em nuvem se tornaram pré-requisitos. Ao reconhecer isso, a Document Foundation reposiciona o LibreOffice para a próxima década. Ainda que os desafios sejam consideráveis, a experiência anterior com o desktop comprova que comunidades globalmente distribuídas podem criar softwares de qualidade empresarial.
Se o projeto online alcançar maturidade, governos, escolas e usuários domésticos terão finalmente uma alternativa auditável aos serviços proprietários. E, quem sabe, em alguns anos, instalar o LibreOffice em um servidor local via Docker se tornará tão trivial quanto subir um blog em WordPress.
O maior recado por trás do anúncio é simbólico: o software livre continua vivo, capaz de se reinventar. Hoje, podemos afirmar com segurança que LibreOffice Online renasce – e com ele renasce a promessa de uma web mais aberta, colaborativa e controlada pelos próprios usuários.
Com informações de How-To Geek