Open Audio Codec OAC substituto ganha destaque entre engenheiros de som e empresas de tecnologia após a Aliança para Mídia Aberta indicar que o padrão deverá suceder o Opus em futuro próximo.
Mesmo quem não acompanha os bastidores dos codecs já se beneficia de soluções como VP9 e AV1 no dia a dia. Agora, uma iniciativa semelhante tenta repetir o feito no universo do áudio: nasce o OAC, que pretende entregar qualidade superior, menor uso de banda e manter a filosofia livre de royalties que tornou o Opus tão popular.
Como chegamos ao novo codec de áudio
Desde 2012, o Opus reina como opção preferencial para quem busca compressão eficiente, licença aberta e suporte consolidado em navegadores, aplicativos de mensagens e reprodutores multimídia. No entanto, a evolução vertiginosa do vídeo – impulsionada pelos codecs VP9 e AV1 – trouxe um contraste desconfortável: não havia um salto equivalente no âmbito sonoro.
A percepção desse descompasso ficou mais evidente com o avanço de plataformas de streaming, videoconferência em alta definição e redes móveis que mesclam conexões de alta e baixa qualidade em poucos segundos. Enquanto AV1 assegura imagem nítida mesmo sob flutuações de banda, o áudio permanecia restrito às eficiências de uma década atrás.
Foi nesse cenário que a Alliance for Open Media (AOM) deu o pontapé inicial no projeto Open Audio Codec. A proposta foi oficialmente registrada sob a sigla OAC no repositório GitHub da entidade, deixando claro o objetivo: ocupar o mesmo espaço estratégico do Opus, porém oferecendo ganhos de performance suficientemente robustos para rivalizar ou superar alternativas proprietárias, como xHE-AAC.
Quem compõe a Aliança para Mídia Aberta
A AOM reúne pesos-pesados da tecnologia e do entretenimento. Entre seus membros fundadores estão Google, Amazon, Netflix, Microsoft, Meta, Intel e Mozilla. Todos compartilham o interesse em padrões livres de royalties que reduzam custos de licenciamento, acelerem inovações e evitem entraves comerciais na adoção de novos formatos.
Graças a essa coalizão, o AV1 ganhou impulso e passou a ser integrado em serviços de streaming, chips de decodificação e até em webcams com codificação em tempo real. O histórico, portanto, cria expectativas positivas quanto ao destino do OAC.
O que diferencia o OAC do Opus hoje
Do ponto de vista técnico, o estágio atual ainda replica integralmente a especificação do Opus. O código-fonte inicial foi desenvolvido como “fork” da biblioteca libopus, mantendo estrutura compatível: amostragens de 8-48 kHz, bitrates de 6-510 kb/s, modos mono, estéreo e multicanal, além de suporte a taxa fixa (CBR) ou variável (VBR).
Apesar da semelhança, o diretório README do projeto menciona que características-chave serão revistas à medida que o time de engenharia avançar. Entre os tópicos frequentemente discutidos em conferências de áudio moderna destacam-se:
- Algoritmos de compressão temporal mais sofisticados, capazes de preservar transientes críticos (ataques de instrumentos, estalos de fala) com menos dados.
- Aprendizado de máquina para modelagem de ruído e reconstrução de banda alta, técnica já explorada por codecs recentes que apostam em redes neurais.
- Metadados de loudness integrados, adequando o volume percebido conforme recomendações ITU-R, algo em que xHE-AAC leva vantagem.
- Ferramentas nativas de mescla espacial e imersiva, de olho em formatos 3D popularizados por jogos e streaming de realidade virtual.
Por que buscar um substituto em vez de aprimorar o Opus
Embora o Opus permaneça estável, adicioná-lo a dispositivos com processadores ultracompactos – smartwatches, wearables fitness e sensores IoT de voz – pode ser custoso em consumo de energia quando se exige áudio de alta fidelidade. Além disso, a longevidade de 10 anos expôs limitações estruturais que impedem saltos radicais sem reformular a base do código.
A criação de um novo nome (OAC) deixa claro para fabricantes e desenvolvedores que mudanças internas não são meros ajustes incrementais, mas sim um redesenho que poderá quebrar compatibilidade binária ou exigir nova certificação de hardware.
Impacto potencial sobre MP3 e o ecossistema de tocadores
MP3 continua firme por dois motivos principais: todos os chips dedicados, desde décadas passadas, o decodificam sem esforço, e todas as patentes expiraram em 2016. Na prática, isso elimina atritos jurídicos ao distribuir ou vender players MP3. O OAC, portanto, desafiará não apenas o Opus, mas a persistência cultural de um formato “bom o bastante”.
Para conquistar esse espaço, o sucessor deverá oferecer benefícios tangíveis ao usuário final. Entre eles:
- Redução real no consumo de dados móveis, percebida em planos pós-pago limitados;
- Melhor qualidade perceptiva em headphones populares, inclusive modelos Bluetooth fortemente comprimidos;
- Latência ultrabaixa, crucial para jogos na nuvem e comunicação em tempo real (VoIP);
- Adoção nativa em grandes serviços: se Spotify, YouTube Music ou WhatsApp abraçarem o padrão, o mercado acompanha.
Questões de patente: lições do passado
Grande parte dos argumentos a favor de codecs abertos decorre de impasses de licenciamento vividos por fabricantes. Um caso emblemático ocorreu com laptops HP que não reproduziam H.265/HEVC “out of the box” porque a companhia optou por não pagar o pacote de patentes do MPEG LA. O usuário final só percebeu o problema quando tentou assistir a um vídeo 4K e recebeu um alerta de incompatibilidade.
Transpondo a experiência para o áudio, imagine fones TWS de baixo custo que, por razões semelhantes, não incluam decodificação AAC avançada. Ao embarcar um padrão livre como o OAC, o fornecedor elimina incertezas jurídicas, agrada consumidores que não precisarão instalar apps externos e reduz custos de propriedade intelectual em mercados onde margens são apertadas.
Comparativo preliminar: OAC, Opus e xHE-AAC
A ausência de especificações finais impede testes objetivos, mas cabe analisar o panorama atual:
- Opus: desempenho já satisfatório a 64 kb/s para estéreo; latência abaixo de 26 ms; integração sólida em WebRTC.
- xHE-AAC: reprodução eficiente abaixo de 32 kb/s, metadados de loudness e ganho dinâmico; licenciamento da Fraunhofer IIS.
- OAC: metas públicas ainda não definidas; herda a filosofia livre; potencial de empregar técnicas modernas que surgiram após 2012.
A disputa por menor bitrate com qualidade digna de transmissões FM e, ao mesmo tempo, sem taxas de uso, coloca o OAC como candidato natural em rádios online de países com infraestrutura limitada.
Possíveis cronogramas e fases de adoção
A AOM não fez anúncios de datas formais, mas o fluxo observado em AV1 pode servir de guia:
- Spec Draft 1: publicação de metas concretas – estimativa dentro de 12 meses;
- Ferramentas de referência: encoders/decoders para pesquisa universitária e testes beta – entre 18 a 24 meses;
- Versão 1.0: congelamento de bitstream para início de otimizações de hardware – em torno de 36 meses;
- Silicon IP: primeiros chips em TVs, celulares e placas de captura – 48 a 60 meses após o kick-off;
- Adoção mainstream: serviços de streaming migrando catálogo, apps recebendo atualizações automáticas – 5 a 7 anos.
Essas etapas podem acelerar caso empresas com grande poder de distribuição – Google via Chrome/Android, Netflix em smart TVs – decidam bancar early adoption.
Benefícios para videoconferência e redes instáveis
Uma das promessas da nova geração de codecs não se restringe a músicas. Em ambientes de videoconferência, gargalos de upload prejudicam a interação mais do que a transmissão de vídeo propriamente dita. O som precisa chegar claro e sem cortes para preservar tempo de resposta entre as pessoas.
Se o OAC garantir bom resultado mesmo em 9 kb/s, usuários de zonas rurais ou conexões de 2G terão experiência mais próxima de quem navega em fibra. Em termos educacionais, isso significa aulas à distância menos suscetíveis a falhas. Para call centers, representa redução de custos de banda larga ao equipar milhares de ramais VoIP.
Imagem: Lucas Gouveia
Influência sobre dispositivos de internet das coisas
A IoT cresceu com sensores que enviam comandos de voz para a nuvem. Cada pacote de dados economizado prolonga a autonomia de baterias em fechaduras inteligentes, campainhas e assistentes residenciais. Um codec eficiente diminui o volume de dados e, logo, a energia gasta pelo rádio Wi-Fi ou Bluetooth Low Energy.
Desenvolvedores que trabalham com microcontroladores ESP32 ou ARM Cortex-M costumam esbarrar na memória limitada para bibliotecas de compressão. Se o OAC nascer modular e otimizado, poderá se tornar padrão de fato para streaming de voz nesses cenários.
Mercado de games e realidade virtual
Títulos AAA que oferecem chat por voz precisam equilibrar latência contra qualidade, sob risco de comprometer a imersão. Atualmente, muitos estúdios adotam Opus em 24 kb/s. Se o OAC mantiver a mesma latência porém com menor bitrate ou qualidade superior, tende a ser incorporado em engines populares como Unreal e Unity.
Na realidade virtual, a sincronização de áudio 3D com vídeos 360° demanda grande largura de banda. Qualquer ganho no fluxo sonoro libera espaço para texturas e malhas mais detalhadas, melhorando a experiência total do usuário.
Desafios práticos na migração
Embora o OAC seja projetado como substituto, o legado gigantesco de arquivos e dispositivos compatíveis com MP3 e Opus não desaparecerá. Por isso, especialistas indicam que conviveremos com três gerações de codecs ainda por longo tempo. A transição tende a seguir o modelo adotado pelos navegadores: suporte plural e detecção automática do formato mais eficiente para cada cliente.
Para criadores de conteúdo, surgirá a necessidade de reencodar bibliotecas. Ferramentas de automação terão papel central, evitando trabalho manual. Já provedores de CDN precisarão estimar se a economia em tráfego compensa o custo de armazenamento de múltiplas versões do mesmo arquivo.
Papel das comunidades open source
Projetos de código aberto, como FFmpeg e GStreamer, são fundamentais para popularizar codecs emergentes. Seus mantenedores integram suporte, facilitando a realização de benchmarks e a criação de plugins para editores de áudio. A AOM historicamente trabalha em conjunto com esses times, fornecendo documentação preliminar e financiando eventos para discussão técnica.
Contribuidores voluntários podem relatar bugs, sugerir otimizações específicas de processadores ARM ou x86 e até propor filtros de pós-processamento que melhorem artefatos em bitrate muito baixo.
Cenário regulatório e neutralidade tecnológica
Diferente de padrões ISO/MPEG, que exigem quórum de governos e empresas pagantes, a filosofia de especificação aberta da AOM garante maior agilidade. Isso, porém, não isenta a organização de analisar possíveis sobreposições de patentes já concedidas em diversos países. Advogados especializados participam do processo para mitigar riscos de litígio, garantindo que qualquer eventual reivindicação seja tratada antes da versão final ser congelada.
O que dizem as grandes plataformas de música
Até o momento, Spotify, Apple Music, Deezer e Tidal não se pronunciaram publicamente sobre o OAC. Entretanto, executivos de engenharia consultados em painéis da NAB Show destacam que adotariam “qualquer codec livre que reduza custos de CDN sem degradar a experiência”. Como o tráfego de áudio ainda representa fatia relevante das despesas mensais dessas empresas, basta atingir 10 % de economia para justificar a migração.
No caso específico do Spotify, que atualmente prioriza Ogg Vorbis a 320 kb/s no plano premium, a transição seria relativamente simples, pois Vorbis também é licença aberta e a empresa detém know-how em manipulá-lo. A substituição por OAC dependeria de melhorias notáveis em qualidade percetual a bitrates médios (96 kb/s) e baixa complexidade computacional na decodificação móvel.
Influência sobre podcasts e rádios online
Podcasters tendem a exportar episódios em MP3 pela compatibilidade total com players embutidos em navegadores e agregadores. Contudo, plataformas como Anchor, Podbean e Megaphone já realizam transcodificação interna para Opus ou AAC durante streaming dinâmico, entregando variantes adaptativas.
Quando o OAC estiver maduro, será natural substituir a etapa de saída para Opus pelo novo formato, especialmente em áudios falados, nos quais algoritmos de compressão podem explorar redundâncias maiores do que em música. Isso ampliará tempo de reprodução sem buffering, atraindo ouvintes de mercados emergentes.
Quanto tempo leva para chegar aos consumidores
Se o roteiro do AV1 servir de referência, a adoção leva anos, mas pode acelerar graças ao aprendizado acumulado. Telefonia móvel 5G exige melhorias constantes de espectro e eficiência, e provedores têm interesse em soluções que maximizem cada megahertz. A pressão comercial por chamadas de vídeo estáveis em 4K – algo inviável se o áudio travar – cria ambiente favorável para o OAC despontar antes do previsto.
Conclusão: perspectivas e próximos passos
A revelação do Open Audio Codec OAC substituto acende discussões sobre futuro do áudio digital. Ainda que detalhes técnicos definitivos não estejam públicos, o simples fato de a AOM assumir o projeto indica intenção séria de preencher lacuna no trânsito de dados sonoros.
Se alternar entre bitrate reduzido, qualidade de estúdio e licença livre como promovido, o OAC poderá consolidar-se não apenas como sucessor do Opus, mas como alternativa viável ao onipresente MP3. O caminho até o ouvinte comum, porém, depende de especificação clara, ferramentas de referência estáveis, engajamento de comunidades open source e, por fim, adoção por gigantes do streaming.
Enquanto aguardamos os próximos capítulos, engenheiros, pesquisadores e produtores de conteúdo acompanham com atenção cada “commit” no repositório, ansiosos por experimentos que ajudem a moldar uma nova era de áudio acessível, eficiente e verdadeiramente aberto.
Com informações de How-To Geek