Sistema aberto para smartwatches: AsteroidOS 2.0 revoluciona relógios

O sistema aberto para smartwatches AsteroidOS acaba de alcançar um marco importante: a versão 2.0. A atualização, esperada há quase oito anos desde o lançamento inicial, traz funcionalidades inéditas, aumenta drasticamente a lista de relógios compatíveis e renova o ambiente gráfico.

Neste artigo, examinamos em profundidade tudo o que muda na nova versão, por que a comunidade de software livre celebra o avanço e como usuários comuns podem se beneficiar da proposta de um ecossistema totalmente aberto, independente de grandes empresas e, sobretudo, controlado pelo próprio usuário.

1. O que é o AsteroidOS e por que ele importa

Liberado pela primeira vez em 2018, o AsteroidOS nasceu com a missão de oferecer uma alternativa de código aberto ao Wear OS, sistema do Google que domina o mercado de smartwatches Android. Assim como o Android puro para smartphones, o projeto aposta em transparência, privacidade e personalização como diferenciais competitivos.

Baseado em Linux, o sistema distribui aplicativos essenciais – como relógio, cronômetro e controle de mídia – sob licenças permissivas, permitindo que desenvolvedores auditem, modifiquem ou redistribuam cada linha de código. Isso o torna interessante para entusiastas que desejam prolongar a vida útil de aparelhos já lançados e para marcas independentes que buscam fugir de royalties ou restrições proprietárias.

2. Principais novidades da versão 2.0

A chegada do AsteroidOS 2.0 não se limita a correções superficiais. Abaixo, detalhamos os avanços que tornam a atualização a mais robusta já disponibilizada.

Always-on display e economia de bateria

Uma das queixas históricas dos usuários era a ausência de um modo de tela sempre ativa. O novo firmware resolve o impasse ao introduzir um algoritmo que mantém informações básicas visíveis, diminuindo significativamente o brilho e a taxa de atualização quando o relógio está em repouso. Isso reduz o consumo energético sem sacrificar usabilidade.

Tilt-to-wake e gestos de palma

Girar o pulso para acender a tela, recurso padrão em marcas consagradas, agora faz parte do leque nativo. Além disso, um gesto inédito – cobrir o mostrador com a palma – coloca o relógio em modo de suspensão instantaneamente, economizando bateria em ambientes escuros, como cinemas ou quartos à noite.

Medição de batimentos cardíacos

A monitoração cardíaca passa a integrar o núcleo do sistema. Embora alguns dispositivos suportassem capturas básicas via aplicativos de terceiros, faltava uma implementação oficial que aproveitasse o sensor óptico integrado na maioria dos relógios modernos. A versão 2.0 traz um driver unificado e algoritmos de filtragem de ruído para leituras mais precisas.

Contagem de passos, bússola e controle de volume remoto

Com a expansão de sensores suportados, o AsteroidOS agora registra passos diários, calcula distância percorrida e integra um módulo de bússola para orientação sem internet. Nos controles de mídia, o usuário passou a ajustar volume diretamente no pulso, algo solicitado desde a primeira compilação estável.

Novo QuickPanel personalizável

Inspirado em painéis de sistemas móveis contemporâneos, o QuickPanel foi inteiramente reescrito. Além de alternar Wi-Fi, Bluetooth e modo não perturbe, é possível adicionar atalhos para aplicativos, verificar nível de bateria e até programar desligamento automático em horários predeterminados.

Sete estilos de launcher e nightstand mode

Quem gosta de personalizar a grade de aplicativos ganha liberdade sem precedentes. São sete layouts de launcher – de listas verticais minimalistas a carrosséis circulares – que podem ser alternados em tempo real, sem reinicialização. Já o nightstand mode transforma o smartwatch em relógio de cabeceira, exibindo hora e alarmes em fonte grande enquanto carrega.

Novo pacote de apps: Diamonds e lanterna

Para momentos de distração, o AsteroidOS 2.0 inclui o Diamonds, jogo inspirado no clássico 2048. Já a lanterna usa o display em branco na luminosidade máxima, solução prática em locais escuros quando o smartphone não está por perto.

3. Expansão da compatibilidade: quais relógios entram no clube

Um dos principais trunfos do lançamento é o suporte ampliado a smartwatches que chegarão ou já estão fora do ciclo de atualização de seus fabricantes. A tabela a seguir resume os modelos oficialmente suportados na íntegra na versão 2.0:

• Fossil Gen 4, Gen 5 e Gen 6
• Huawei Watch (2015) e Huawei Watch 2
• Ticwatch E, Ticwatch E2, Ticwatch Pro, Ticwatch Pro 3
• OPPO Watch (41 mm e 46 mm)
• Moto 360 (2015)

Além deles, existe compatibilidade parcial – definida pela própria comunidade como “experimental” – para dispositivos como Casio WSD-F10/F20, LG Watch Urbane 2, primeiro Moto 360, Samsung Gear Live e Samsung Gear 2. A chegada do Gear 2 marca a primeira vez que o AsteroidOS roda em kernel Linux mainline sem a camada libhybris, responsável por adaptar drivers do Android. Esse feito simplifica futuras manutenções e atualizações de segurança.

4. Ecossistema de sincronização: Android, Linux e além

Ter um sistema aberto para smartwatches atrai, mas a real utilidade surge quando o relógio conversa com o celular. O AsteroidOS depende de aplicativos de sincronização para espelhar notificações, transferir dados de saúde e controlar mídia remota.

No Android, o AsteroidOS Sync recebeu nova interface, pareamento simplificado e detecção de chamadas em tempo real, exibindo quem liga diretamente no pulso. Para quem utiliza desktops ou notebooks Linux, tornou-se possível emparelhar via Amazfish, popular entre usuários do SailfishOS. Já a comunidade Ubuntu Touch estreia o Telescope, primeiro cliente de sincronização dedicado ao sistema móvel mantido pela UBports.

5. Por dentro do processo de desenvolvimento comunitário

Ao contrário de empresas que lançam atualizações anuais regidas por estratégia comercial, o AsteroidOS evolui por meio de voluntários distribuídos globalmente. Contribuidores se organizam em fóruns, salas de chat Matrix e repositórios GitHub. Embora a cadência de lançamentos tenha sido modesta – a versão 1.1 permaneceu em rolling release por anos – os mantenedores prometem ciclos mais curtos daqui em diante. O objetivo é evitar novos hiatos de oito anos.

Segundo nota oficial, a troca do kernel em alguns dispositivos para versões mainline abre caminho para pacotes universais e menos dependência de adaptações proprietárias. A iniciativa reduz as chances de obsolescência a longo prazo, um dos problemas mais criticados no universo de wearables.

6. Como instalar o AsteroidOS 2.0

Interessados precisam seguir procedimentos específicos, pois cada relógio exige bootloader desbloqueado, acesso a modo fastboot e gravação do sistema via computador. O site oficial mantém tutoriais detalhados, mas o resumo do processo é o seguinte:

  1. Verificar se o modelo está na lista de suporte completo.
  2. Desbloquear o bootloader (alguns fabricantes exigem códigos de desbloqueio).
  3. Instalar o recovery compatível (geralmente TWRP adaptado).
  4. Flash do arquivo de sistema (.tar ou .img) fornecido pela comunidade.
  5. Configurar o aplicativo AsteroidOS Sync no Android ou equivalente em Linux.
  6. Sincronizar relógio e telefone pelo Bluetooth.

O procedimento, embora técnico, conta com validação passo a passo da comunidade. Para usuários menos experientes, fóruns no Reddit e grupos Matrix oferecem suporte em tempo real.

7. Comparação com Wear OS e outros concorrentes

Adotar um sistema aberto para smartwatches levanta dúvidas naturais sobre desempenho, disponibilidade de apps e integração com assistentes virtuais. Veja como o AsteroidOS 2.0 se posiciona frente aos principais rivais:

Catálogo de aplicativos

Enquanto o Wear OS oferece centena de apps na Play Store, o AsteroidOS concentra-se em funções essenciais. Contudo, por ser open source, qualquer pessoa pode portar aplicações web ou criar apps nativos usando Qt/QML, linguagem oficial do projeto. O repositório FOSS contabiliza dezenas de opções, com tendência de crescimento após o retorno dos lançamentos estáveis.

Privacidade

Diferentemente do ecossistema Google – que coleta métricas para aprimorar serviços – o AsteroidOS armazena dados localmente, enviando-os apenas mediante consentimento do usuário. Para quem prioriza controle sobre informações de saúde e localização, trata-se de um ponto decisivo.

Autonomia de bateria

O Wear OS evoluiu nas últimas gerações, mas permanece criticado pelo consumo elevado. Nos testes da comunidade, o AsteroidOS 2.0, combinado ao novo always-on display, permite até dois dias de uso moderado em relógios de 400 mAh, superando grande parte dos modelos com sistemas proprietários.

Atualizações

Embora fabricantes determinem quando um wearable deixa de receber suporte, o AsteroidOS continuará disponível enquanto houver voluntários dispostos a compilar o kernel. Dessa forma, relógios vintage, há muito abandonados por suas marcas, podem ganhar sobrevida.

8. Implicações para sustentabilidade e economia circular

A discussão sobre lixo eletrônico ganha força quando consideramos que, a cada ciclo de dois anos, milhões de smartwatches são descartados por falta de atualização ou bateria degradada. A proposta de um sistema aberto para smartwatches reduz a pressão por novos dispositivos, pois atualizações independentes prolongam a relevância de hardwares antigos.

Além disso, a demanda por componentes de íon-lítio, metais raros e placas de circuito é atenuada. Organizações ambientalistas veem iniciativas como o AsteroidOS como aliadas na luta por consumo consciente e economia circular, na qual produtos são projetados para durar e serem reparados.

9. Desafios que ainda precisam ser superados

Nenhum software livre está isento de obstáculos. O AsteroidOS 2.0 avança, mas enfrenta limitações que podem afastar o público mainstream.

Escassez de apps de terceiros – Falta de nomes populares, como Spotify ou WhatsApp, pode ser impeditivo para quem usa o relógio como extensão do smartphone.

Instalação complexa – O processo de desbloqueio e flash exige certa familiaridade com linhas de comando e paciência para lidar com eventuais falhas.

Assistente de voz inexistente – A ausência de assistente integrado limita a experiência hands-free, cada vez mais presente em soluções concorrentes.

Falta de certificações sanitárias – Embora o medidor de batimentos funcione bem para uso cotidiano, não há homologação médica oficial, algo que gigantes do setor já buscam junto a entidades regulatórias.

10. Depoimentos da comunidade

Em fóruns do projeto, usuários relatam diferentes impressões pós-atualização:

“Consegui instalar no meu Huawei Watch 2 e fiquei impressionado com a suavidade dos novos gestos. A vida útil da bateria dobrou.” – Carlos Henrique, desenvolvedor Android.

“O suporte mainline no Gear 2 é revolucionário. É a primeira vez que vejo um smartwatch de 2014 rodar kernel 6.x sem gambiarras.” – Júlia Mendes, entusiasta de firmware.

“Ainda sinto falta de um serviço de pagamentos, mas para quem quer privacidade é a melhor opção.” – Roberto Figueira, administrador de redes.

11. Futuro do projeto: o que esperar das próximas versões

De acordo com os mantenedores, a partir do 2.0 o cronograma passa a ter cadência semestral. Entre os itens do roteiro público estão:

• Integração com carteiras digitais de código aberto;
• Suporte oficial a eSIM e chamadas LTE independentes;
• Migração definitiva de todos os modelos para kernel mainline;
• API de plugins para assistentes de voz comunitários;
• Repositório de aplicativos baseado em Flatpak.

Tais metas, se concretizadas, poderão posicionar o AsteroidOS como alternativa não apenas para reutilizar hardware antigo, mas para equipar novos relógios de fabricantes que buscam diferenciação no mercado.

12. Como contribuir

O projeto aceita colaborações em várias frentes. Desenvolvedores podem enviar pull requests no GitHub ou participar do teste de versões noturnas. Tradutores ajudam na localização da interface, enquanto usuários avançados coletam logs e relatam bugs. Doações financeiras também são bem-vindas, garantindo a infraestrutura de servidores e compilação contínua.

Conclusão

O AsteroidOS 2.0 demonstra que um sistema aberto para smartwatches não é apenas viável, mas capaz de oferecer experiência completa, alinhada às necessidades atuais de privacidade, autonomia e sustentabilidade. Para quem deseja retomar o controle do próprio dispositivo ou simplesmente prolongar a vida de um wearable antigo, a nova versão chega em hora oportuna.

Se a comunidade mantiver o ritmo, veremos uma pluralidade maior de softwares nos pulsos, fomentando concorrência saudável num mercado dominado por poucos players. Caso você tenha um relógio compatível abandonado na gaveta, talvez seja hora de lhe dar uma segunda chance.


Com informações de How-To Geek

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